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Febre de jogos na internet aumenta risco de vício

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Felipe Salustino
Repórter

Comprometimento da vida social, sofrimento psíquico, dívidas e até a morte. Os efeitos para dependentes de jogos de aposta on-line são variados e não é exagero dizer que o vício pode levar a desdobramentos trágicos, como a perda da própria vida. As causas, de acordo com especialista ouvido pela TRIBUNA DO NORTE, são sempre multifatoriais, ou seja, geralmente a adicção, termo utilizado pela psiquiatria para se referir ao problema, está acompanhada do vício em álcool, sexo, drogas ou compulsão por compras, por exemplo.

Admitir sozinho a condição é difícil, mas a reportagem conversou com dois jogadores de Natal que reconhecem já ter passado ou que ainda sofrem com a dependência.


Júnior (nome fictício), de 39 anos, conta que começou a jogar em 2019 na esperança de fazer uma grana extra. Cinco anos depois, ele diz estar mais “educado” em relação às apostas. “São jogos da Bet 365. Recentemente, perdi R$ 500 em bitcoins. Uma pessoa me orientou como jogar passo a passo, mas era golpe e eu perdi. Outra vez apostei em um jogo de futebol e perdi mais R$ 800. Se não tiver controle emocional, a pessoa fica viciada. Nesse sentido, fui me educando porque entendi que, sem controle, a gente perde tudo que tem”, afirma.


Outro jogador, que conversou com a reportagem na condição de anonimato, disse ser impossível calcular as perdas financeiras depois do vício instalado. Ele reconhece que não tem conseguido deixar as apostas. “Eu diria que meu vício em jogo é, de certo modo, esporádico e até controlado, mas é algo que não consigo me desprender. Acho que o que me mantém ativo é a ‘esperança’ de ter a possibilidade de aumentar meus ganhos financeiros, seja na loteria, em títulos de capitalização, ou até mesmo nas Bets”, diz o homem, de 27 anos.


Saber que pessoas próximas ganharam dinheiro nas apostas dificulta o desejo do rapaz em parar. Ele confessa que o vício traz impactos emocionais, como sentimentos de tristeza profunda. “Já prometi a mim mesmo várias vezes que iria parar de jogar nas Bets, mas a acessibilidade e o fato de ver amigos jogando (e ganhando) acaba nos estimulando a voltar. E sabe qual é o problema? Às vezes você está com pouco recurso para algum fim e quer multiplicar aquilo para ter mais dinheiro sobrando. E o que acontece? Você perde e fica extremamente triste”, relata.


Com a educação que diz ter adquirido ao longo dos anos, Júnior garante que não sofre com o vício atualmente, mas alerta que a prática pode sair de controle e provocar muita dor de cabeça. “Já conheci gente completamente descontrolada fui enganado e perdi, pelo menos, R$ 5 mil nesse período. Hoje, só aposto quando tenho segurança. Não vou mais em qualquer jogo como eu fazia antes”, detalhou à reportagem.
Para o médico psiquiatra Ernane Pinheiro, é importante compreender que o apostador não é um viciado em potencial, mas ele orienta sobre a necessidade de estar atento a comportamentos que podem indicar a dependência. “A pessoa começa a perder dinheiro, a se endividar, mente em relação à frequência dos jogos, começa a deixar de ter relacionamentos amorosos, de passear, de socializar e de trabalhar. Esse fatores passam a causar sofrimento, porque se passa a negligenciar outros aspectos importantes da vida”, explica.


“Quando esses prejuízos surgem, a gente pode considerar um vício e dizer que a adicção ou dependência se caracterizou”, complementa Ernane Pinheiro, que é presidente da Associação Norte-rio-grandense de Psiquiatria (ANPRN). Segundo o médico, homens jovens, de até 40 anos, são maioria entre os dependentes, mas as mulheres não estão isentas do problema. “Nesse caso, são pessoas mais velhas. É aquela mulher que perdeu os pais, por exemplo, e começou a procurar algum lazer e se deparou com as apostas”, descreve.

Risco de morte para adictos
“O youtuber que perdeu R$ 170 mil, carro e emprego em apostas esportivas”; “Beneficiários do Bolsa Família chegam a gastar mais de R$ 100 por mês em apostas esportivas, diz Datafolha”; e “Jovem paraibana morre após dívidas de jogo do Tigrinho”. As manchetes, muitas vezes copiadas de sites de notícias espalhados pelo Brasil, estampam as publicações no Instagram da página Brasil sem Azar, movimento nacional contrária à legalização da jogatina no País. Por mais assustador que pareça, segundo o psiquiatra Ernane Pinheiro, a dependência dos jogos on-line pode sim levar à morte, conforme notícia sobre a morte da jovem na Paraíba.


Os indivíduos, aponta o médico, podem ficar expostos a situações de violência por causa de dívidas, além de outros reflexos. “Por causa do vício, a pessoa começa a se endividar e não consegue mais crédito junto ao banco. Então, normalmente ela começa a pegar emprestado com parentes, passa a cometer roubos dentro e fora de casa ou faz empréstimos com agiotas. Isso pode levá-las a sofrer violência. Impactos no organismo dos jogadores não são incomuns, os quais podem levar o indivíduo à exaustão e à morte”, destaca Pinheiro.


“Há o relato de um paciente que levou nove dias jogando. Ficava em frente ao computador com um fraldão geriátrico, se alimentando de pipoca, tomando água e indo ao banheiro raramente. Felizmente, ele não morreu, mas seguiu até o nível da exaustão. Como ele fazia uso de substância química, conseguiu se manter acordado durante todo esse período”, descreveu o médico. A existência de outros problemas psiquiátricos para quem tem este tipo de vício é bastante comum, segundo o especialista.


“Temos um conjunto de fatores que se associam e determinam a dependência. De um a dois terços das pessoas com adicção em jogos têm outras comorbidades, como transtorno bipolar, depressão, ansiedade, vício em sexo, pornografia, trabalho ou compras compulsivas. A oportunidade de jogar, ou seja, quando ela conhece alguém que faz apostas, também é um fator. Não há indícios de que a genética seja um determinante para isso”, esclarece Ernane Pinheiro.


Ele explica que o cérebro de uma pessoa viciada em jogos on-line funciona da mesma forma que o de uma pessoa com outros tipos de dependência. “Existe um neurotransmissor no cérebro chamado dopamina. Ele é liberado quando há prazer. Então, a pessoa que começa a jogar, começa a liberar a dopamina e vai necessitar cada vez mais dela. Existe uma espécie de circuito cerebral que determina esse adoecimento, o qual, por sua vez, é explicado por um circuito neuroquímico que tem a ver com a motivação e o interesse”, descreve.


De acordo com o médico, quando uma pessoa se expõe a drogas ou à pornografia, por exemplo, surge a necessidade de um sistema de recompensa, que se concretiza com o consumo da substância ou do conteúdo pornográfico. “Isso faz com que o indivíduo, cada vez mais, queira ter esse sistema de recompensa ativado”, afirma Pinheiro. A identificação do problema não é simples e quase sempre é feita por pessoas próximas, como parentes ou amigos.


“Como qualquer outro vício, a pessoa acha que está tudo bem. Por isso, a ajuda se dá geralmente por meio de um familiar ou amigo que, muito mais do que identificar, precisa entender a situação como uma patologia, sem fazer julgamentos morais. A partir daí, ela orienta o dependente a ir a um médio ou a grupos de ajuda mútua, sem julgamentos morais. Sozinho é quase impossível a pessoa buscar ajuda”, aponta o especialista.


O psiquiatra é o profissional adequado para diagnosticar e indicar o tratamento para a dependência em jogos de aposta. O presidente da Associação de Psiquiatria do RN orienta que a procura por atendimento especializado é importante também porque esse profissional poderá identificar outros tipos de vícios que influenciam no quadro do paciente. “O correto é procurar um psiquiatra para que ele dê um diagnóstico, o qual, geralmente, não é apenas em jogos, como eu já mencionei”, diz Ernane Pinheiro.


“O profissional vai poder identificar outras dependências e, a partir de então, vai dar início a um tratamento, que tem a ver com o uso de medicamentos para cada comorbidade, além da indicação de psicoterapia com um psicólogo. O médico psiquiatra vai indicar que a pessoa vá a um grupo de ajuda mútua, bem como irá direcionar para outras modalidades de tratamento necessárias”, completa o especialista.

Jogadores Anônimos
A irmandade Jogadores Anônimos é um grupo de ajuda mútua que atende apostadores de várias partes no País. O grupo se prepara para instalar uma sede no Rio Grande do Norte em breve. O apoio a dependentes no Estado é feito, por enquanto, apenas de forma on-line, mas o grupo oferece auxílio presencial em estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Minhas Gerais, Ceará, Bahia e Pará.


O trabalho da irmandade acontece nos moldes de grupos como os Alcoólicos e Narcóticos Anônimos. O grupo é composto por pessoas que compartilham experiências, com o objetivo de parar de jogar, manter a abstinência e ajudar outros jogadores compulsivos a fazerem o mesmo. Não há mensalidades ou taxas para tornar-se membro dos Jogadores Anônimos.

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