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O mar invade a terra firme no RN

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Isaac Lira – Repórter

Anselmo Morais, 28, costumava brincar na praia quando criança. Com o restante da meninada de Caiçara do Norte, ele subia um pequeno morro e andava 300 metros para chegar até à água. Vinte anos depois, as crianças na praia de Caiçara não precisam andar tanto para tomar banho de mar. As ondas  quebram praticamente no quintal das casas mais próximas à praia da cidade. Anselmo não é meteorologista. Contudo, mesmo sem dispor de dados científicos, ele não tem dúvidas de que a singela praia de pescadores de Caiçara do Norte é um típico exemplo dos efeitos das mudanças climáticas que o planeta está passando.

Pescadores como Francisco Brito Júnior que atuam em Caiçara do Norte dão depoimentos que confirmam o avanço do marA comunidade de Caiçara, como outras tantas no Brasil e no mundo, estarão devidamente representadas na 62a. Reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, a ser realizada de 25 a 30 de julho, em Natal. Quando o primeiro pesquisador iniciar a sua fala sobre as mudanças do clima do planeta, o destino de todas as cidades que, assim como Caiçara, dependem do mar para sobreviver estará em jogo. Na reunião científica, termos muitas vezes inacessíveis para o público comum, como “efeito estufa”, “temperatura do oceano”, “linha de costa”, entre outros. Mas o assunto não se encerra aí. E as consequências de um tema tão árido são perfeitamente percebidos por qualquer cidadão comum.

Se Anselmo Morais e os outros moradores de Caiçara já não conseguem viver sem os 11 “espigões” responsáveis por brecar o avanço das águas do mar, isso não é coincidência. O clima do planeta está de fato mudando, como alardeiam cientistas há mais de 10 anos. A Terra está mais quente, o que interfere diretamente na dinâmica dos oceanos. O derretimento das calotas polares – imensas geleiras existentes nos dois polos da Terra – causam necessariamente um aumento do nível do mar. Por isso, não é difícil encontrar nas regiões costeiras, pescadores garantindo que o mar está invadindo a terra firme.

Segundo cientistas, essa “invasão” é progressiva e irreversível. O avanço irá continuar, embora seja possível diminuir o seu ritmo e minimizar os seus efeitos. Os prognósticos mais otimistas mostram um aumento de 18 cm a 59 cm do nível do mar nos próximos 100 anos. Outros relatórios  fixam essa variação entre um e seis metros. Pode parecer uma variação mínima, mas não é. Somente no RN, essas “previsões”, caso confirmadas, significam a perda de partes do território do Estado e a inviabilização de atividades econômicas importantes, como a extração de sal em Macau.

O professor de geologia da UFRN, Venerando Amaro, estuda há mais de 10 anos o comportamento da chamada “linha de costa” no RN. A linha de costa é simplesmente o limite entre o mar e a terra firme. Com tanto tempo de observação, ele pôde verificar o quanto o mar tem avançado na costa do Estado. O cenário é particularmente nebuloso para a porção setentrional do RN. As comunidades localizadas após Touros, indo para o Norte, serão as mais afetadas, de acordo com os estudos do professor Venerando. O motivo é a ausência de barreiras naturais, como arrecifes e rochas, no caminho das águas naquela região. Municípios como Macau, São Bento do Norte, Guamaré e Porto do Mangue estão em rota de colisão com o avanço do mar.

Nos últimos 20 anos, a linha de costa avançou 800 metros em alguns trechos da região. Entre Macau e São Bento do Norte, esse aumento foi de 650 metros, com variações a depender do trecho estudado. Os números, conseguidos a partir de satélites de alta resolução e GPS de alta performance, demonstram a seriedade do assunto. A região estudada contém atividades econômicas importantes para o Estado, como a extração de sal, carcinicultura e a produção de petróleo em Guamaré. Tudo isso poderá ser inviabilizado com o aumento do nível do mar.

Uma característica natural torna esse cenário ainda mais problemático. Os estuários, áreas onde as águas de mares e rios se encontram criando um ambiente rico e importante para peixes e outros animais, devem ser afetados. Como são áreas mais baixas, os estuários devem ser invadidos pela água do mar, causando um intenso desequilíbrio capaz de inviabilizar a pesca em algumas regiões.

Embora pareça um assunto distante, os efeitos das mudanças climáticas merecem ser tratados como prioridade. Por isso, cientistas de todo o mundo procuram estudar como esses efeitos irão modificar a vida das pessoas. No RN, não é diferente. Estudos mostram as possíveis novas configurações do Estado daqui a cem anos.

Aumento da temperatura é invegável

Se existe um consenso entre os cientistas, é a elevação da temperatura da terra. Não há dúvidas disso. As medições mostram claramente que nos últimos 200 anos a Terra ficou cerca de um grau Celsius mais quente. A dúvida é se as mudanças climáticas são provocadas pelas interferências do homem na natureza ou se o planeta naturalmente sofre com essas variações climáticas.

A reposta para essas indagações é, atualmente, impossível. Isso acontece porque os ciclos da terra levam um tempo muito superior ao de uma vida humana. O período de observação humana do comportamento da Terra é ínfimo se comparado com a idade do planeta. Como os pesquisadores não podem acompanhar um ciclo inteiro, não há como ter certeza. Esse raciocínio é a base das desconfianças de parte da comunidade científica – uma minoria, é bom ressaltar – contra as teorias do “efeito estufa”.

Mesmo assim, a maioria dos cientistas acredita na forte influência do atual modo de vida e produção, com a queima de combustíveis fósseis que leva à acumulação de alguns gases na atmosfera, como o Dióxido de Carbono, no aquecimento do planeta. O difícil é fixar exatamente o tamanho dessa influência. “No que diz respeito ao avanço do mar, sabemos que há esse avanço, que existe uma influência da ação do homem, mas não temos como dizer até que ponto esse avanço é natural ou é resultado dos desequilíbrios ambientais”, explica o pesquisador Venerando Amaro.

Estado potiguar tem seis áreas com riscos de inundações

Quando se fala de clima, qualquer prognóstico é perigoso. Como se trata de um sistema bastante complexo, onde qualquer variação pode alterar o resultado, as “previsões” dos cientistas a esse respeito devem ser vistas com cautela. É impossível simular a realidade sem erros. Os pesquisadores procuram considerar algumas variáveis e apontar alguns caminhos, que não podem ser levados ao pé da letra. Contudo, as pesquisas trazem considerações importantes para se enfrentar o problema. “Um prognóstico tanto pode se confirmar inteiramente como se mostrar mais ou menos danoso”, explica o professor Venerando Amaro.

Feita essa ressalva, é interessante observar os estudos do Programa de Pós-graduação em Geodinâmica e Geofísica. A tese de doutorado de Michael Vandesteen Silva Souto, orientada por Venerando Amaro, expõe seis cenários possíveis de riscos de inundação no RN. A pesquisa considera o relatório do IPCC (sigla em inglês que corresponde a Painel Intercontinental sobre Mudanças Climáticas), chamado “Climate Changes”, de 2007, e dados de monitoramento das calotas polares desde 2003. Assim foi possível dizer quais áreas serão atingidas no RN, caso os estudos se confirmem na prática. O relatório traz desde a perspectiva mais pessimista até a mais otimista. Em todos os casos, o RN perde quilômetros e quilômetros por inundações.

Na perspectiva mais otimista, quando o nível do mar se elevaria “somente” um metro, o RN teria 15 cidades atingidas, entre elas Natal, Guamaré , Macau, Extremoz, Caiçara do Norte, São Bento do Norte, entre outros. Quando os cenários vão se agravando, com a elevação do nível do mar crescendo, vai-se incluindo outros municípios como Mossoró, São Gonçalo do Amarante, Touros, Rio do Fogo, até chegar ao número de 23 municípios, sendo 12 na porção mais ao Norte e 11 na porção mais ao sul. Mais uma vez, as áreas do litoral setentrional – depois de Touros – são as mais afetadas. “Sem dúvida preocupa a situação nessas áreas, porque serão mais afetadas. Nos municípios depois de Touros, existem barreiras naturais que amenizam esses efeitos”, afirma o professor Venerando. E complementa: “Isso não quer dizer que a parte oriental do Estado não vá ser atingida. E com um agravante: em cidades como Natal, onde há uma séria questão imobiliária, os efeitos são sempre importantes, por menores que sejam”.

A mais pessimista das análises mostra a perda de 1.125 quilômetros quadrados, ou seja 2,12% do território do Estado e 17,05% da área costeira potiguar. Nesse caso, os municípios de Macau e Porto do Mangue perderiam 50% de suas terras. Guamaré, Galinhos e Areia Branca perderiam 20% e toda a agricultura instalada no vale do rio Ceará-mirim ficaria inviabilizada. A Ribeira, bairro mais antigo de Natal, incluindo a área do porto, também sofreria com as inundações. O total de pessoas afetadas é 1,5 milhão, com a alta probabilidade de intensas migrações.

É sempre preciso ressaltar a necessidade da não tratar esse assunto de maneira alarmista. Os cenários propostos na pesquisa podem ou não se confirmar. O resultado, daqui a 100 anos, pode ser melhor ou pior. “O que realmente importa é chamar a atenção para a necessidade de diminuir a influência negativa da ação do homem no clima da terra. Estudos como esse servem como alerta”, diz o professor Venerando Amaro. Até porque não há consenso científico sobre o ponto central da discussão: até que ponto as mudanças climáticas são resultado da ação humana?

Uma cidade entre o mar e as dunas

Caiçara do Norte não tem saída. É literal. Se por um lado, a cidade precisa conviver com a voracidade do mar, que já derrubou muros e chega a lavar a rua principal da cidade durante os dias de maré mais agressiva, do outro lado, Caiçara luta contra as dunas. Historicamente, a cidade já precisou mudar de lugar por conta do constante movimento das dunas. Hoje, a cidade é um exemplo da luta entre homem e natureza.

A orla de Caiçara é a primeira evidência dessa luta constante. São 11 “espigões” para conter a fúria do mar. Um “espigão” é uma longa estrutura de pedra colocada na orla. O equipamento é responsável por segurar a força da água e é um paliativo. “Existem essas estruturas de contenção, mas elas são eficazes por um tempo limitado. Não dá pra lutar contra a natureza”, diz o professor Venerando.

A Prefeitura de Caiçara do Norte reformou os 11 espigões, todos com mais de 10 anos, e pretende instalar mais oito. A curto prazo, é uma medida bastante eficaz. Contudo, a erosão da orla (quando o mar leva embora mais sedimentos do que deposita) continua. Em Caiçara, o último espigão já mostra sinais de corrosão, justamente porque a força do mar fica concentrada naquele ponto. O pescador Ronaldo Ferreira se mostra impressionado com a força do mar. “Quando eu era mais novo, a gente andava um tempo para chegar no mar. Hoje, a água já está quase dentro da cidade”, diz Ronaldo, acrescentando que o mar já “comeu” casas e ruas nos últimos 20 anos. “Meu tio tinha um armazém que teve de ser desocupado”, conta.

A poucos metros dali, outros moradores de Caiçara lutam uma batalha ainda mais inglória. Se a força da água pode ser contida com pedras, a sutileza da fina areia de praia é invencível. A própria Prefeitura de Caiçara admite não saber o que fazer com os movimentos do chamado Monte do Ronca. O Monte era localizado praticamente na divisa com o município de São Bento do Norte. Nos últimos anos, a duna, que é móvel, passou a “andar” na direção da cidade. É um fenômeno natural, agravado pela constante retirada de areia para construções na cidade.

Salete Nascimento, de 43 anos, sabe bem os efeitos negativos da luta contra os movimentos da duna. Num dia do ano de 2007, ela saiu para a praia de Rio do Fogo e, quando voltou, viu a casa tomada pela areia. “Quando eu cheguei, a casa tava praticamente soterrada. Perdi geladeira, armário, fogão. Ainda morei lá um tempo, quando a Prefeitura me cedeu esse terreno”, diz. Os demais habitantes das redondezas vivem sob a expectativa dos ventos fortes de verão, que enchem as casas de areia.

A Prefeitura tenta conseguir verba federal para desalojar os moradores em perigo. A tentativa de plantar no terreno da duna se mostrou infrutífera. No verão, Caiçara é invadida por vento repleto de areia. Uma lenda, viva no imaginário popular, diz que um dia Caiçara será soterrada novamente pelas dunas da região. É impossível para o homem lutar contra a força da natureza. A resposta está em Caiçara. 

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