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O que há de mito e de verdades sobre os anões

Ricardo Araújo – repórter

Antes mesmo da chegada do Messias, há 2011 anos, os anões eram vistos como criações bizarras do mal, utilizadas em rituais de bruxaria e para entreter e servir reis e súditos dos impérios ao redor do mundo. Somente em 1812, quando os irmãos Grim compilaram alguns contos de fadas de origem oral na Alemanha, o esteriótipo de figuras desumanas começou a ser quebrado com o conto da Branca de Neve e os sete anões.

 Hoje, mesmo preservando algumas características de milhares de anos, seja trabalhando como atores, artistas circenses ou humoristas, os anões conseguiram ganhar espaço nas empresas públicas ou privadas e trabalhar em setores administrativos de diversas companhias. Mesmo diante de tantas conquistas, o problema ainda é tabu. O nanismo é uma disfunção genética pouco discutida no Brasil e o preconceito contra aqueles que tem estatura menor que a normal, um ponto negativo.

 A alteração cromossômica  que provoca o nanismo causa um crescimento esquelético anormal, que geralmente resulta em um indivíduo de baixa estatura, bem inferior à da média populacional. Nos humanos, em termos de adultos, o anão é uma pessoa que tem até por volta de 1,40 metro de altura. No Brasil, um dos anões mais famosos é o cantor gospel Nelson Ned, com 1,12 metro.

 No Rio Grande do Norte, diferente do Rio de Janeiro, não há nenhuma associação de anões cadastrada ou conhecida. A anã Kênia Rio, 45 anos, luta para convencer a sociedade de que os anões são muito mais do que pessoas com limitações de altura. Kênia, que também é advogada, preside a Associação de Nanismo do Estado do Rio de Janeiro (Anaerj), onde estão cadastrados mais de 130 anões. A reivindicação por benefícios e o combate ao deboche, são os principais pontos defendidos pela Anaerj.

 Kênia afirma que uma piores sensações é quando, na rua, uma criança aponta para ela e começa a sorrir e os pais fazem o mesmo. Ela julga esta situação como omissão e muitas crianças ainda ligam a imagem do anão ao conto da Branca de Neve, como se eles fossem figuras mitológicas ou criadas por um escritor.

 O médico geneticista João Neri explica que a acondroplasia, que é o nome da alteração cromossômica que causa o nanismo mais comum no Brasil, altera apenas o tecido conjuntivo que formam os ossos. “A única disfunção é no desenvolvimento da estatura, que é uma displasia óssea. Os anões que não são portadores de hidrocefalia são capazes de desempenhar qualquer função no mercado formal de trabalho. O intelecto não é afetado”.

 Ele comenta que os acondroplásicos que nascem com hidrocefalia, aproximadamente 40%, geralmente não vivem mais de um ano. “Por isso que não vemos tantos anões circulando. A maioria morre ainda quando bebê”. Apesar de existir um equilíbrio entre acondroplásicos do sexo feminino e masculino, a maior incidência das mortes ocorre entre os homens, como em qualquer outra doença, expõe o médico.

 Um outro ponto que gera bastante curiosidade entre os próprios anões e a sociedade em geral, é o desenvolvimento dos órgãos dos acondroplásicos. João Neri explica que todos os órgãos, inclusive os genitais, se desenvolvem normalmente, como numa pessoa com altura normal. “O desenvolvimento dos órgãos é independente da disfunção óssea”.

 A acondroplasia pode afetar filhos de casais com estatura dentro da média regional – 1,65 metro para o Nordeste – como aconteceu com Jânia Santos, que tem 1,10 metro de altura. “Caso haja um casamento consanguíneo, entre parentes próximos, a probabilidade é maior”. João Neri afirma que as alterações na estrutura óssea causadas pela modificação genética podem ser identificadas durante a gestação.

 “Mesmo identificadas nos meses iniciais da gravidez, a disfunção não tem cura pois ocorre nos cromossomos. É genético”, confirma o geneticista. Apesar de não ter cura, ele reitera que os anões dever ser enxergados como indivíduos competentes e capazes de desempenhar inúmeras funções, sem discriminação.

Companhia tem anões em elenco

O 1,10 metro de altura é inversamente proporcional a felicidade estampada em seu sorriso. Vaidosa, simpática e de bem com a vida, a bailarina Jânia Santos é o exemplo personificado de que uma deficiência não deve ser encarada como uma rota que não leva a felicidade. Há um ano no elenco da Companhia Gira Dança, que inclui deficientes físicos e mentais em seu corpo de baile, ela diz que apesar das limitações impostas pelo nanismo, é muito feliz, independente e realizada.

 Por desconhecimento de seus pais, sua condição física era explicada como uma escolha de Deus e não uma alteração genética. “Por muito tempo eu me questionava por que eu era assim. Até que um dia eu vi outro anão e a ideia na minha cabeça foi começando a mudar. Eu não era a única”. Vítima de piadas de mal gosto na escola, ela aprendeu desde cedo a se impor e ser respeitada pelos seus colegas de classe.

Hoje, aos 27 anos, com o ensino médio concluído, ela está casada com um homem de estatura normal e sua condição não a impediu de construir uma relação sólida e de amor mútuo. “Sou casada há nove anos. Meu esposo é locutor em uma rádio comunitária. Somos felizes”. No início da relação ela diz que sofreu preconceito da própria família que   não acreditava no futuro do casal.

Além da dança, que é uma de suas paixões, Jânia trabalha numa escola como auxiliar de serviços gerais. Ela conta que não foi difícil conseguir emprego e todos a respeitam no local de trabalho. “Quando se tem um objetivo e você vai atrás, as portas se abrem. Eu nunca deixei que as pessoas me tratassem como se eu fosse incapaz”.

Entre os próprios anões existe uma certo preconceito. Jânia diz que não namoraria um homem com condições físicas semelhantes às suas pois não se sente atraída. “Antes eu tinha medo de anão e circo. As pessoas me diziam que eu seria uma palhacinha no circo e que só me casaria com outro anão”.

O diretor artístico da Cia. Gira Dança, Anderson Leão, explica que a inclusão de deficientes em suas criações coreográficas é uma forma de informar melhor a sociedade sobre a capacidade de trabalho que eles têm.

Jânia pretende continuar dançando por muito tempo e afirma que a liberdade conquistada através do seu trabalho formal e como bailarina fazem dela uma mulher realizada. “Como cidadã anã, quero ser respeitada. Eu faço minha parte respeitando os demais”.

Mercado de trabalho está mais aberto

 Uma grande vitória dos anões foi o reconhecimento do nanismo como deficiência, o que possibilitou, de fato, a abertura das portas do mercado de trabalho para eles. Para o cumprimento da Lei de Cotas – que obriga os empresários a admitirem de 2% a 5% de deficientes no quadro de funcionários  – muitos anões foram contratados pois a disfunção genética que eles portam não atinge, na maioria dos casos, o desenvolvimento intelectual. A única limitação, portanto, é a estatura.

 Conforme afirma o ator e humorista Cláudio Castro, famoso também pelo seu vídeo “A dança do quadrado” que obteve mais de 14 milhões de acessos no youtube, a conquista de vagas no mercado formal de trabalho pelos anões é extremamente positiva. A Lei de Cotas, instituída pelo Governo Federal através do Ministério do Trabalho, proporciona aos portadores de nanismo a possibilidade de optar por trabalhos formais, rompendo paradigmas de que os anões são somente artistas de circo.

 Nos países de primeiro mundo, como os Estados Unidos por exemplo, é possível encontrar anões trabalhando em bancos, bilheterias de cinemas e agências de correios. Em Natal, a ocupação de vagas do mercado de trabalho formal por eles ainda é muito discreta.

número

O Banco Real é uma das empresas que contratam portadores de nanismo através do Programa de Valorização da Diversidade. Apesar de tímido, o número de anões que trabalham na empresa chega a 18. A superintendente de desenvolvimento humano do banco comenta que eles ascendem de posição mais rápido que a média dos demais funcionários.

 O mercado cobra, entretanto, que os profissionais anões se qualifiquem mais. Diante dos problemas enfrentados diariamente nas escolas e faculdades, que não dispõem de infraestrutura adaptada para os anões, na grande maioria, muitos desistem de estudar. Além disto, alguns empresários distinguem a faixa salarial dos anões dos demais funcionários com estatura dentro de média.

Entrevista
Cláudio Castro/ ator e humorista
“No primeiro dia de aula era um inferno”

Ao longo da sua vida, quais foram os principais obstáculos superados?
As primeiras grandes dificuldades foram os obstáculos caseiros. Trincos das portas, apagar ou acender uma luz, etc. Mas minha luta diária é apenas para mostrar para todos que sou apenas um anão nada mais que isso. O que me falta é altura. Força de vontade, ideias e espírito de luta eu tenho de sobra! Mato um leão por dia para mostrar isso no dia a dia do meu trabalho, da minha casa e no convívio com os amigos.

Na fase escolar, o que você ouvia dos seus colegas de classe e como lidava com isso?
No primeiro dia de aula era um inferno. Sempre as mesmas perguntas: por que é pequeno? Por que não cresceu? Seus pais também são assim? Depois disso eu fazia amizade e sempre era o líder. Na escola eu aprendi: você tem que atacar de bad boy, assim você era temido e respeitado. Eu dava problemas para os diretores

Psicologicamente, como você analisa sua condição? Que tipos de consequências psicológicas você identifica?
Minha condição é ótima! Eu tiro vantagens psicologicamente das pessoas

Fisicamente, existe alguma consequência da disfunção genética? Você sente dores, sofre algum tipo de doença proveniente do nanismo?
Tenho problemas na coluna e na junção do fêmur. Mas isso é fichinha. Sempre digo que estou ficando velho e por isso as dores.

Como você é e de que forma gostaria de ser visto pela sociedade?
Sou uma pessoa que pensa em sempre estar rodeado de amigos. Sou metido quero sempre ser líder. Gosto de minha fama, mas sou pé no chão. Sou famoso por vários motivos. Alguem me ajudou e se estou onde estou é por um trabalho de equipe, não cheguei sozinho. E dou a maior atenção para quem vem falar que me viu ou assistiu em algum lugar. Assim a sociedade me vê uma pessoa divertida e isto reflete apenas meus talentos.

Você namora, é casado? Sua estatura influencia nos seus relacionamentos amorosos? Você costuma se relacionar com mulheres na mesma condição que você?
Namoro e vou casar em breve ela é de estatura normal. Minha estatura sempre foi uma barreira, mas sempre usei esse critério. Se a pessoa me vê como um anão ela não vê meu coração (rimou até). Fiquei uma vez com alguém do meu tamanho e confesso: foi estranho. Foi estranho porque foi diferente do que é normal para mim. Tava ali tudo pertinho (risos).

Quais são os preconceitos que a sociedade tem em relação aos portadores de nanismo?
Que não somos capazes de subir em um telhado, de dirigir um carro, uma empresa ou ser alguém de destaque sem ser artista. Que sempre seremos os anões da Branca de Neve, gnomos e duendes mágicos.

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