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Uso ilegal de cetamina alimenta contrabando

O uso indiscriminado da cetamina em pessoas, tem alimentado o tráfico e contrabando da substância no Brasil. Além do efeito alucinógeno, a droga sintética de uso veterinário que é desviada do meio veterinário, onde é comprada por um valor baixo, é comercializada por altos preços no mercado clandestino. A substância está no centro da investigação que resultou na prisão de familiares de Djidja Cardoso, sinhazinha do Boi Garantido, que foi encontrada morta em sua casa no mês passado em Manaus/AM, sob suspeita de overdose da droga.


O médico psiquiatra Emerson Arcoverde explica que a cetamina, também chamada de Ketamina ou quetamina, tem como principal característica o efeito anestésico, sendo atrativa pelo caráter dissociativo e alucinatório que proporciona. “A problemática está no uso recreativo da droga, que tem baixo custo e acesso facilitado por contrabandistas e traficantes”, destaca Arcoverde.


Esse acesso se dá pelo desvio do destino da droga. Segundo o psiquiatra, a droga utilizada para uso recreativo vem do formato veterinário da substância, em alta concentração e baixo valor de venda. “O uso voltado para o uso veterinário não justifica o acesso facilitado da droga, não é como se as pessoas pudessem adquirir a qualquer momento. O acesso realmente é através do mercado clandestino do material”, destaca o psiquiatra.

Para se ter uma ideia, uma ampola de cetamina que custa cerca de R$ 90 no mercado legal, é revendida por até R$ 400 a traficantes. Em pó, ela é vendida entre R$ 100 a R$ 150 o grama. Devido o crescimento do contrabando, as apreensões dessa droga mais do que dobraram no Brasil em 2023, ante o ano anterior, segundo a Polícia Federal. No período, o total de casos subiu de 10 para 22 e o de gramas apreendidos, de 2.514 para 4.463 (alta de 78%). Em 2021, quando a PF passou a compilar dados sobre essa substância, o salto é maior. Naquele ano houve 4 apreensões, com recolhimento de 698 gramas.

“O aumento do uso recreativo em baladas e raves é observado há aproximadamente 15 a 20 anos, apesar de ser uma droga antiga, a problemática se intensificou nos anos 2000 mesmo”, destaca o médico.

Além do uso recreativo e ilícito, a ketamina é usada em esquemas criminosos, como golpes do tipo “boa noite, Cinderela”, pois é capaz de causar apagões. Seu uso irregular provoca náuseas, aumento de pressão e a inconsciência decorrente dos episódios dissociativos. Por todas essas características, o mau uso provoca rapidamente dependência.

Prescrição para tratamento psiquiátrico
O psiquiatra Emerson Arcoverde adverte que até a prescrição médica da cetamina para tratamento de transtornos psiquiátricos como ansiedade e depressão é feita com cautela. “Devido à sua grande possibilidade de causar dependência, mesmo em caso de uso para tratamentos, é uma droga que não pode estar nas mãos do paciente. Mesmo o formato médico da droga, a sua autorização e tratamento se limitam ao uso clínico e/ou ambiente hospitalar”, enfatiza Arcoverde.


O tratamento psiquiátrico com o uso da substância é feito através de doses pequenas e controladas para pacientes acometidos por quadros de ansiedade e depressão. “No uso terapêutico a droga é utilizada como auxílio do tratamento que já está em curso. Ou seja, um paciente que já realiza o tratamento para depressão irá iniciar, também, o tratamento com a cetamina, em associação ao tratamento contínuo já existente”, explica o psiquiatra.

Em tratamento, a cetamina é administrada em pacientes em ambiente calmo e controlado, inclusive com músicas calmas para não desencadear nenhum tipo de transtorno. É um cenário oposto ao que se observa no uso recreativo.

Hospitais Universitários Federais vinculados à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), dentre eles o Hospital Universitário Onofre Lopes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Huol-UFRN), realizam uma pesquisa sobre o uso terapêutico da cetamina. No Huol, cerca de 10 pacientes participam do estudo. Segundo Emerson Arcoverde, o tratamento que embasa o estudo não é feito em uso contínuo, tendo a duração de cerca de oito semanas. Além disso, é voltado a pacientes acometidos com depressão grave e pensamentos suicidas, que já realizaram pelo menos outros dois tratamentos medicamentosos para a depressão e não obtiveram sucesso.

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