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Cresce consumo de cigarros eletrônicos; entenda os riscos

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Foi em uma calourada da universidade, na presença de amigos e embalado pela euforia de novas experiências, que o natalense Gustavo Macedo foi apresentado ao cigarro eletrônico pela primeira vez. Resolveu experimentar sem compromisso, sabendo dos possíveis malefícios do produto, mas não imaginava que os prejuízos poderiam alcançar maiores proporções. Do uso esporádico em uma festa, o objeto se tornou um vício presente na rotina do jovem por cinco meses. Segundo pesquisa realizada pelo instituto Ipec, apenas nos últimos seis anos, o consumo do produto cresceu 600%. Com a alta na incidência, o Brasil já soma quase 3 milhões de usuários do dispositivo.


A pesquisa aponta dados do período de 2018 a 2023 e ouviu adultos de 18 a 64 anos. Ao todo, a incidência do consumo do cigarro eletrônico é referentes a 12 estados do país, visando alcançar uma amostragem nacional, sendo Pernambuco o único representante do Nordeste. A pneumologista Suzianne Lima, professora da UFRN e coordenadora do Grupo de Tratamento de Tabagismo do Hospital Onofre Lopes (Huol/UFRN), enxerga o aumento no consumo com preocupação. Isso porque, embora o número de tabagistas tenha caído no início dos anos 2000, o dado voltou a progredir com a chegada dos Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEFs).


Além de serem uma alternativa ao cigarro comum, o design, a possibilidade de escolher entre diferentes sabores e o fator “novidade” tornaram o objeto popular entre os jovens. Foi o que aconteceu com Gustavo Macedo, estudante de Publicidade e Propaganda, que hoje ainda utiliza o vape em momentos pontuais. Aos 24 anos, ele relata que o contato com o cigarro eletrônico aconteceu há dois anos. No caso dele, um dos principais combustíveis para continuar com o consumo foi o desejo de reduzir a ansiedade com a qual convive, ainda que temporariamente.


Em muitos casos, a propaganda enganosa anunciando a ausência de nicotina no produto também pode atrair quem acredita que ele oferece menores riscos à saúde. “Tabagismo é tabagismo de qualquer maneira, seja cigarro de palha, combustível, ou eletrônico. O que muitas pessoas que comercializam falam é que não tem nicotina, mas sabemos que tem e em uma quantidade muito maior”, adverte Suzianne Lima.


No cigarro eletrônico, explica a pneumologista, a nicotina está presente em pequenas partículas associadas ao ácido benzoico. Este, por sua vez, torna a substância menos amarga e apresenta uma partícula capaz de ultrapassar a barreira da massa encefálica. Em outras palavras, chega ao cérebro rapidamente, causando a sensação de prazer e potencializando as chances de dependência química. O líquido utilizado nos vapes, uma vez superaquecido e transformado em aerosol, também resulta em processos de inflamação e oxidação dentro do corpo.

Ausência de fiscalização

Do sentimento do prazer à dependência, o uso dos DEFs não passa despercebido e deixa marcas na vida dos usuários. Após cinco meses usando o produto, Gustavo Macedo desenvolveu reações alérgicas marcadas por palpitações e comprometimento das cordas vocais. Diante do cenário de gravidade e por orientações médicas, o jovem iniciou o processo de enfrentamento ao vício. “Meu maior apoio foram as pessoas que tive à minha volta, sem dúvidas”, compartilha.


Hoje, apesar do estudante não ter uma dependência, utiliza tanto o cigarro comum quanto o eletrônico em momentos pontuais. Sempre que isso acontece, ele tem uma certeza: as reações alérgicas irão se manifestar. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o aumento de chances de desenvolvimento de doenças cardíacas e pulmonares estão entre os riscos já conhecidos do uso dos cigarros eletrônicos.


“A grande diferença, entre o cigarro eletrônico e o comum, é que no eletrônico é possível personalizar a quantidade de nicotina, o que é extremamente perigoso, que chega mais rápido no cérebro. [Há, também], a presença de substâncias que muitas vezes não sabemos quais são. Estão sendo estudadas, mas não temos ideia do que muitas substâncias são capazes de fazer sendo fumadas de maneira aerossolizada”, elucida Suzianne Lima.


Apesar de encontrar caminhos para ser comercializado, a venda de cigarros eletrônicos é proibida no Brasil, desde 2009, por determinação da Anvisa. No Rio Grande do Norte, uma outra norma corrobora na regulamentação do problema: a Lei 11.326, em vigor desde o final de 2022, responsável por proibir o uso dos cigarros eletrônicos em espaços fechados ou semiabertos.


O texto foi proposto por Suzianne Lima, quando ela ocupava a presidência da Associação de Pneumologistas do Rio Grande do Norte, e aprovado pela Assembleia Legislativa do Estado (ALRN). Na avaliação da especialista, ainda é preciso uma maior fiscalização no processo de comercialização e divulgação do produto junto ao público. Entre as medidas defenddas por ela, estão a punição nos casos de venda ilegal, promoção de palestras educativas e capacitação das forças de segurança para identificar os objetos.


Sem medidas combativas, ressalta a especialista, a tendência é que a população continue apresentando contato precoce com o produto. “Quem sofre são os nossos jovens que cada vez mais estão adoecendo, tendo sintomas respiratórios. Teremos, daqui a pouco, uma juventude precoce com câncer, enfisema pulmonar, sintomas de asma, entre outras doenças. [Isso porque] o tabagismo não vai acometer apenas o sistema respiratório, mas todo o organismo”, argumenta.

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