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Eliana Brilhante Cobbett

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A última vez que falei com Eliana Cobbett foi há duas semanas, dia 23 de março, por telefone. Bem rápido. Eu cobria um evento na Fundação José Augusto, gente saindo pelo ladrão, e toca o telefone. Lembro que estava imprensado entre a parede e uma multidão de gente, mas deu para ver o nome no visor do celular. Diferente das últimas vezes, quando sempre atendia perguntando como andavam aquelas insuportáveis dores na coluna que ela vinha sentindo desde que fez uma cirurgia de redução de estômago, pedi para ligar mais tarde por conta daquele alvoroço. “Eliana, deixa eu te ligar quando chegar a redação do jornal?”, perguntei já me despedindo. Mas não retornei a ligação. Me esqueci. Logo da Eliana Cobbett que nunca esquece dos amigos. Seja para perguntar como andam os projetos, para saber da família ou pedindo uma dica do que estava faltando na lista dos presentes de casamento.

Eliana tinha uma força fora do comum. Quem a conheceu sabia disso. Ela mesma dizia que aquela energia toda vinha do marido já falecido, o cineasta potiguar Willian Cobbett – responsável pelo primeiro filme potiguar rodado no Rio Grande do Norte, em 1972: Jesuíno Brilhante.

Eliana conseguia fazer tudo ao mesmo tempo. Embora estivesse atolada de projetos, estava sempre pronta para abraçar mais um. O dinheiro dava? Não, o dinheiro não dava. Mas Eliana fazia sem dinheiro, ficava devendo, pagava com empréstimo, devia ao banco, pagava ao banco, devia ao agiota, pagava ao agiota… jogo de cintura conquistada com a experiência adquirida em mais de 40 anos como produtora do cinema brasileiro.  

Mas Eliana não era só do cinema. Um dos projetos de que tinha mais orgulho foi feito em parceria com o  genro Paulo Markun, jornalista que apresenta o programa Roda Viva, da TV Cultura. Foi ela quem captou os recursos para a edição da coleção “O Melhor da Roda Viva”, com as melhores entrevistas do programa, editada por Markun.

Em outubro do ano passado, conversando com o também produtor de cinema Luís Carlos Barreto aqui em Natal, perguntei a ele como era sua relação com o casal Cobbett, durante a ditadura militar. Ele só faltou estender o tapete vermelho. “Eram duas pessoas singulares, generosas. O Willian, nos anos 50/60, era o único cara que tinha escritório. Eles tinham a distribuidora Tabajara, que distribuía filmes soviéticos aqui no Brasil. A Tabajara faz 50 anos agora, e se o cinema brasileiro tem uma dívida com o Willian e a dona Eliana, tem que ser paga na comemoração da distribuidora. Acho até que dona Eliana deveria ressuscitar essa empresa. Logo ela que criou a “Escola Vai ao Cinema”, no Rio de Janeiro, que estimulava as crianças a ir aos cinemas. Era uma verdadeira loucura! Mas ela continua na batalha”, disse na época.

Eliana nunca aceitou a falta de reconhecimento do Rio Grande do Norte em relação ao trabalho de Willian. Ele, natural de Carnaúba dos Dantas, que saiu jovem de Natal para trabalhar no Rio de Janeiro. Ela, mineira de nascimento, carioca de paixão e potiguar por necessidade, como se lutasse também para reaver a memória da família aqui no Estado. 

Conheci-a na edição 2005 do Festival de Cinema de Natal, quando a direção decidiu homenagear Willian Cobbett por Jesuíno Brilhante. A atriz Vanja Orico, que participou do filme, também foi convidada, recebeu prêmio e tudo. Mas Eliana não aceitava qualquer homenagem. No final da noite de entrega dos prêmios, quando nem o nome do marido nem do filme foram sequer citados pelo cerimonial, Eliana se revoltou e foi embora chorando, num desabafo. 

Para falar a verdade, foi a única vez que vi a matriarca dos Cobbett triste. Depois dali, levantou a cabeça e saiu em romaria exibido Jesuino Brilhante em escolas públicas e no meio das praças do interior do Estado. A TRIBUNA DO NORTE acompanhou uma dessas exibições, em julho passado na cidade de Assu, e mostrou a reação dos moradores – a maioria crianças e personagens do próprio filme – que reviam a história 26 anos depois. Entrevistada logo após a exibição, deu a seguinte declaração. “Isso era um sonho do Willian e meu também. Conseguimos recuperar a película de 35 milímetros e de certa forma estamos devolvendo a história para eles. É muito bonito ver essas crianças que não viram nada daquilo de perto olhando na tela do cinema gerações passadas. Esse é o verdadeiro sentido da coisa”, disse.

No final do ano passado, Eliana trouxe a filha cantora e bailarina Tatiana Cobbett, de Floripa para Natal. Traçou um roteiro de apresentações pelo Estado, além de oficinas de balé. Shows, no sentido mais amplo que essa palavra possa ter!, na livraria A S Livros, na Casa da Ribeira, em cidades do interior do RN. Foi uma turnê e tanto, encerrada num Teatro Alberto Maranhão cheio de talentos, mas vazio de público. Eliana colocou no palco, ao lado da filha, o que a cultura popular do Estado tem de melhor: poetas populares como Paulo Varela, de Assu, e Crispiniano Neto, de Mossoró, músicos natalenses, percussionistas, repentistas do interior.. Lá no fundo da casa, com aquela bengalinha de sempre, vi um ar de tristeza rondando aquela mente agitada. “Acho que o Rio Grande do Norte tem alguma coisa contra mim”, disse com um olhar distante e irreconhecível. 

Desde o ano passado, Eliana estava engajada na batalha para transformar a película do filme em DVD. Só não pôde realizar mais esse sonho em vida porque a grana do teto da renúncia fiscal da lei de incentivo Câmara Cascudo já havia sido ultrapassado. O projeto, agora, será tocado pelo filho mais novo dela, André Cobbetti, que está captando os recursos e espera que até o outubro, o DVD, que já tem a garantia de patrocínio da Petrobras, saia do papel.   

Recebi ontem pela manhã a notícia de que Eliana Cobbett havia morrido no sábado, vítima de um infarto fulminante. Estava em casa, em Florianópolis, com um casal de amigos. Sentiu uma dor no peito, passou mal e caiu. Deixa três filhos e muitos amigos. Segundo André, Eliana morreu, praticamente, trabalhando. Ironicamente, estava debruçada sobre o projeto “Brincando de Aprender”, que levaria oficinas de arte para cinco orfanatos de Florianópolis. Logo ela, que ensinava, brincando, que a vida é uma luta diária por objetivos. Até o fim.

Gira dança vai a brasília

O grupo de dança potiguar Giradança, formado por bailarinos cadeirantes e portadores de deficiência visual, estará nos dias 4, 5 e 6 de abril no Caixa Cultural Brasília, apresentando o espetáculo “Envolto”. O grupo é recém-contemplado pelo edital de ocupação do Caixa Cultural e aprovados na Caravana Funarte Petrobras de Circulação. Criada por Anderson Leão e Roberto Morais, ex-integrantes da Roda Viva.
   

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