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A crônica e a realidade

Cláudio Emerenciano
Professor da UFRN

A saudade é um sentimento permanente na vida do homem. Amplia-se, entre outras coisas, sob a égide de circunstâncias. Saudade de entes queridos, que se foram. Saudade de tempos vividos e nunca esquecidos, como a infância, a adolescência, o desabrochar e a vivência do amor. Saudade de sonhos e fantasias, que prometiam mudar a vida e a realidade, tornando-as uma travessia sem o estigma de decepções, amarguras, desencantos, incertezas, sofrimento e insegurança. Tudo num mundo que se auspiciava melhor, renovado permanentemente por um conteúdo humano e espiritual, solidário e fraterno. Sempre pensei que esse sentimento fosse, invariavelmente, imutável. Insusceptível de fim ou esquecimento. Mas há outro sentimento, que dissipa fulminantemente a saudade: a esperança. George Bernard Shaw, um dos gênios do século XX, disse que a última coisa a se apagar na consciência do homem é a esperança. Eis uma percepção no mínimo pessoal, mas instigante e germinadora de reflexões.
O curso da vida, experiências acumuladas, novas expectativas, que desabrocham como as flores, nascendo de minúsculos botões de pétalas, enrolados pela natureza. Tudo torna o viver uma espiral imprevisível, incontida e enigmática. Sinto-me, de algum tempo para cá, uma espécie de pássaro fora do ninho. Não reconheço a alma desse tempo. Estarei deslocado? Não se trata de juízo de valor. Julgar o que nos rodeia como melhor ou pior, bom ou ruim, feliz ou desgraçado? Minha fé cristã não acolhe esse tipo de julgamento. A História é o fluir da presença de Deus entre os homens. Mesmo paradoxais as ações e as construções humanas. Mas o bem prevalecerá.
Fernando Sabino, inesquecível, genuíno em estilo e visão de vida, dizia que a crônica “é um comentário leve e breve sobre algum fato do cotidiano”. Antônio Maria, genial, também da mesma geração, refletindo caracteres provincianos da época, disse que a crônica tem a duração de menos de um dia, e a página, na qual é publicada, seria usada, no dia seguinte, como embrulho “para enrolar peixe”. Mesmo assim, desde os tempos de Machado de Assis, José de Alencar, Olavo Bilac, Lima Barreto, Humberto de Campos e João do Rio, a crônica é uma rica, fecunda e fabulosa criação literária brasileira. O grotesco, o ridículo, o burlesco, o satírico e o pitoresco da vida, fatos aparentemente insignificantes, menores, avultam-se na crônica, proclamando seu compromisso com as mais variadas, complexas e surpreendentes exteriorizações da condição humana. Cascudo, outro grande cronista, estabeleceu uma espécie de “ponte”, vínculo e transição entre João do Rio e os cronistas da geração de 40, que alargaram as fronteiras e os limites desse gênero: Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Antônio Maria, Hélio Pellegrino, Otto Lara Rezende, Nelson Rodrigues, Rachel de Queiroz, Cecília Meireles, Graciliano Ramos, José Lins do Rego. As “Actas Diurnas” revelaram a universalidade da maneira de viver, agir, pensar e querer do natalense. O nosso cotidiano era local, regional, mas também universal. Por isso Cascudo, mais tarde, em uma de suas obras-primas, “Civilização e Cultura”, consagrou algo inquestionável: “será sempre o universal dentro do regional”.
Há personagens típicos e expressivos de uma época. Assim o Conselheiro Acácio e Dâmaso foram excepcionais referências de um tempo em Portugal, imortalizados por Eça de Queiroz. Machado de Assis, Graciliano Ramos, Jorge Amado e José Lins do Rego criaram modelos ainda hoje insubstituíveis e insuperáveis na paisagem humana brasileira. Assim mesmo Balzac, na “Comédia Humana”, é inigualável. Forjou e plasmou quase quinze mil personagens em sua obra. Se alguém quiser conhecer a França e os franceses, basta ler Balzac. Nesse contexto, Jorge Amado no Brasil foi fantástico: criou mais de mil e trezentos personagens.
Ninguém questiona o declínio espiritual e moral do Brasil. Não examinemos suas causas, origens e motivos. Não é esse o momento. Mas, estimulado pela releitura das crônicas de Antônio Maria, busco caracterizar o personagem símbolo desse tempo, que tipifica a erosão moral que está aí: é medíocre, mesquinho, oportunista, solerte, falso, interesseiro, invejoso, desleal e pusilânime. Não fita ninguém de frente, olho a olho. Debocha de quem sabe, de quem estudou. Sua vida e seus sucessos evidenciam o primado da esperteza e do jeitinho. Sua “fé” é hipócrita, farsante e farisaica. Seus valores, particularmente na vida pública, são infames. O que acontece, no Judiciário, nos âmbitos federal e estadual, é degradante e fonte maior da descrença nacional. Os fatos comporiam muito bem contos de Lima Barreto. Talvez crônicas de Agripino Grieco: ácidas e contundentes. O mau uso de dinheiro público é emblemático. A Justiça é lenta. Levam anos para julgar e punir criminosos. Inexplicavelmente. E ainda tentam procrastinar. A ação deletéria de redes sociais estimula e realimenta violência e ódios no Brasil. Daí a saudade de outros tempos. Haja esperança…

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