Ellen Rodrigues - Repórter
Elisa Elsie
Humanização do parto passa a ser uma tendência
A luta pela vida começa no parto. Literalmente. De um lado, a ocitocina, hormônio que estimula a expulsão do bebê, confronta a adrenalina, hormônio do medo e da "fuga". Se o primeiro prevalece, o parto é tranquilo. O estresse da adrenalina, por sua vez, atrapalha, prepara os músculos para o perigo e torna tudo difícil. Esse processo ajuda a entender a importância do parto natural e humanizado, que vem perdendo espaço na "era da cesárea".
O Ministério da Saúde preconiza que entre 10% e 15% dos partos tenham algum procedimento cirúrgico. Mas o que se vê na rede privada, principalmente, é uma maioria de 90% em cesáreas. A assistência humanizada busca dar segurança e conforto à grávida na hora de ter o bebê, e estimular o parto via vaginal. A paz e a tranquilidade reinam no Hospital da Mulher e Maternidade Professor Leide Morais.
Cada uma das 16 suítes se transformam em um verdadeiro "ninho" temporário de cada família. O nome do bebê e da mãe ficam na porta, para que todos sejam chamados pelo nome. "É preciso bater antes de entrar", explica Edilza Pinheiro, diretora do Hospital da Mulher e Maternidade Prof. Leide Morais. Tudo se passa no quarto: pré-parto, nascimento e a recuperação.
O modelo previne ainda que o recém-nascido seja trocado ou raptado dentro da maternidade, medo de Maria Jerônimo, 23, que teve a segunda filha na unidade. "Tinha o maior medo que trocassem com outro bebê, mas aqui não tem como". Isso porque em nenhum momento o bebê sai de perto da mãe, e deixa a unidade já registrado em cartório. "Temos uma pessoa treinada para fazer esse procedimento no Hospital", diz Edilza.
Acolhimento é palavra essencial no vocabulário da equipe de saúde humanizada. Virgílio Rodrigues e a mulher Maria das Dores ganharam a pequena Maria Fernanda na terça-feira. O pai acompanhou tudo de perto, e se surpreendeu com o carinho recebido no Hospital. "Não esperava que fosse assim". Edilza Pinheiro defende que o parto humanizado resgata a postura ética dos profissionais. "Eles precisam ser mais sensíveis", diz.
Para ela, nascer é um ato biológico como dormir, e a grávida deve ter autonomia sobre ele. A Maternidade segue os dez passos da Política Nacional de Humanização do Parto e Nascimento, do MS, onde o programa recebeu o nome de "Bem nascer, eu acolho a vida". Privacidade, aleitamento ainda na primeira hora de vida e direito a acompanhante no processo de nascimento do bebê até a alta são alguns desses itens.
Dos cerca de 12 partos que acontecem diariamente, nunca se registrou óbito. "Não é preciso de muita tecnologia para se conseguir oferecer essa qualidade à grávida. Isso parte basicamente do recurso humano disponível. Da equipe que faz com que ela se sinta apoiada", diz a coordenadora de Enfermagem do Hospital, Nívea Jerônimo. "Assim, ela exerce sua cidadania, torna-se protagonista da ação de parir, que não é papel do médico, do enfermeiro nem do técnico".
O clima é tão familiar que muitas das mães retornam mais tarde com o bebê. "A grávida se sente emponderada, ou seja, capaz de atuar ativamente, não é mera expectadora do processo, ela entende o que está acontecendo" , acrescenta.
"A mulher não pensa na gestação" Elisa Elsie
Edilza Pinheiro, diretora da Escola Maternidade Januário Cicco, defensora do parto humanizado
Enxoval e pré-natal são o ideal da maioria das gestantes que se preparam para a chegada do bebê. Na opinião da fonoaudióloga Maria do Rosário Bezerra, os itens não são suficientes para que tudo ocorra bem. A correria do dia-a-dia interfere na vida da gestante, que não engravida "psicologicamente".
"A mulher engravida para procriar mas nem sempre se doa a esse momento, em um curso de gestante, por exemplo. Hoje só se sabe que ela está grávida porque tem a barriga, mas a rotina é a mesma e ela não pensa na gestação em si", comenta. Para Maria do Rosário, é preciso desmistificar a cultura de que o parto é tratado como doença.
"Será que 90% das mulheres da rede privada têm dificuldade para parir?", reflete. A enfermeira Nívea Jerônimo ressalta a questão econômica que permeia o crescimento das cesáreas. "É mais fácil também para o médico agendar a hora em que o bebê vai nascer. Assim, ele não precisa esperar, pode agendar dez por dia", critica.
O projeto "Bem Nascido, eu acolho a vida" tem ainda o objetivo de fazer com que a mulher redescubra sua feminilidade. Segundo Rosário, o ato de parir é um rito de passagem para a nova função de mãe, que deve ser exercida com autonomia. As especialistas acreditam que quanto mais a filosofia do parto humanizado é resgatada, mais bebês terão a chance de nascer em partos normais.
"A cesárea é um ato médico, mas o parto vaginal é fisiológico. A mãe não precisou de ajuda para engravidar, e o parto é o término da relação sexual de amor e prazer", diz a enfermeira Nívea Jerônimo. Edilza Pinheiro, que é ginecologista e obstetra, lembra que o parto foi transferido ao âmbito residencial para o hospital para proporcionar uma atenção adequada à mulher, o que não significa a intervenção cirúrgica, "a menos que seja necessária".
Grávidas têm medo de serem mal atendidasA simples transferência da gestante em trabalho de parto de uma unidade de saúde para outra sem alguém para acompanhá-la pode gerar uma angústia que atrapalha o processo de parir. Um dos maiores medos da grávida é chegar em um local desconhecido e ser mal atendida, faltar vaga. "Se isso acontece, a gestante não se abre para parir, produz pouca ocitocina", diz Edilza Pinheiro.
Se assustada, o corpo produz adrenalina, que pode desencadear um processo de não parto e até de morte. Nesse contexto, o acompanhante é um fator essencial para um parto tranquilo. "É alguém que vai ajudá-la a ficar mais relaxada". O ideal é que esse acompanhante seja escolhido no início da gravidez e acompanhe a grávida durante o pré-natal, consultas e visita à maternidade.
As visitas abertas são outra proposta do projeto "Bem Nascer eu acolho a vida", e ajuda a grávida a se familiarizar com a unidade, sendo realizada a partir dos sete meses de gestação. Ela é promovida pelas equipes de PSF (Programa Saúde da Família), que realizam o pré-natal na rede de atenção básica.
"Isso faz com que ela se sinta acolhida, como se ela tivesse entrando na casa dela", diz Edilza. Mesmo quando o pré-natal não foi realizado, como é o caso de muitas gestante que chegam do interior do Estado, a assistência é humanizada. "É mais difícil mas mesmo na hora é melhor do que nada".
Quando acolhida, a equipe orienta a grávida como utilizar os equipamentos que vão ajudar no parto, que é outro diferencial do parto humanizado na unidade. Além da cama em várias, uma espécie de "cavalinho", e uma bola estão disponíveis. "A grávida é livre para escolher a melhor posição para ter o bebê, seja sentada, em pé, de quatro ou de cócoras".
DoulasO acompanhante não é o único que ajuda na hora do parto. As "doulas" também participam de forma ativa no processo. Dentro da humanização do serviço, a doula presta também suporte emocional e psicológico, carregado de alguma competência técnica adquirida por experiência ou um treinamento específico para a função.
"Doula significa mulher que serve,ou seja, fica à disposição de quem está parindo para dar água para abanar, tirar o suor, e a priori, pode ser qualquer pessoa, seja um profissional do hospital ou alguém da comunidade", explica Edilza Pinheiro. Uma das metas deste ano é que o serviço seja ampliado com as chamadas "doulas comunitárias".
"Ao longo do ano buscamos inserir cada vez mais a comunidade, com um treinamento, em que as candidatas vão receber orientação sobre a fisiologia da gravidez, como acolhe o parto e como ajudar".